Crise · Pergunta 74

O que são os primeiros socorros psicológicos?

Os primeiros socorros psicológicos constituem uma resposta humana, prática e imediata ao sofrimento de pessoas expostas a acontecimentos críticos — acidentes, catástrofes, violência, perda súbita, situações de crise. Não são intervenção psicoterapêutica, não exigem formação clínica avançada e podem ser prestados por qualquer pessoa preparada, por exemplo voluntários, profissionais de primeira linha e membros da comunidade.

O modelo da Organização Mundial da Saúde organiza-se em três ações sequenciais e sobrepostas. Observar: verificar as condições de segurança, identificar quem necessita de apoio imediato e reconhecer pessoas com reações graves de mal-estar. Escutar: aproximar-se de forma respeitosa, apresentar-se, perguntar pelas necessidades e preocupações, escutar sem pressionar e acolher o sofrimento sem o corrigir. Ligar: apoiar a satisfação de necessidades básicas — água, abrigo, informação, contacto com familiares —, facilitar o acesso a serviços, reduzir o isolamento e reconectar a pessoa à sua rede de apoio.

É essencial compreender o que os primeiros socorros psicológicos não são, dado que várias práticas historicamente associadas a eles são hoje desaconselhadas. Não são a obrigação de relatar o acontecimento em pormenor: o chamado debriefing psicológico, sessão única e estruturada de recordação detalhada aplicada de forma universal após acontecimentos traumáticos, mostrou-se ineficaz e, em alguns estudos, associado a maior risco de perturbação de stresse pós-traumático, pelo que as orientações internacionais desaconselham a sua aplicação obrigatória. Não são recolha de informação para fins alheios ao interesse da pessoa. Não são pressão para exprimir emoções nem para aceitar apoio. E não são aconselhamento profissional.

Entre as ações concretas úteis contam-se: apresentar-se e explicar o que se está a fazer; proteger da exposição a estímulos adicionais, por exemplo curiosos e comunicação social; oferecer água, abrigo e um lugar para sentar; fornecer informação verdadeira, simples e atualizada, dado que a incerteza é uma das principais fontes de mal-estar em situação de crise; ajudar em tarefas práticas concretas; facilitar o contacto com pessoas significativas; e respeitar a autonomia, com oferta de escolhas sempre que possível, dado que o acontecimento crítico é, por definição, uma experiência de perda de controlo.

Entre as ações a evitar contam-se: dizer «sei como se sente» ou comparar com experiências próprias; oferecer explicações de sentido — «tudo acontece por uma razão», «é a vontade de Deus» — não solicitadas; minimizar a perda ou apressar a sua superação; prometer o que não se pode garantir; fazer perguntas sobre pormenores do acontecimento sem necessidade; e insistir com quem prefere estar só, desde que em segurança.

A maioria das pessoas expostas a acontecimentos críticos recupera sem intervenção especializada, e este é um dado importante que evita a patologização precoce das reações normais ao anormal. As reações imediatas — choque, entorpecimento, hipervigilância, irritabilidade, insónia, sonhos repetitivos — são esperadas e tendem a diminuir nas semanas seguintes. A intervenção especializada está indicada quando os sintomas persistem para além de um mês, quando se agravam, quando comprometem o funcionamento ou quando existe risco.

Em Portugal, formação nesta matéria é assegurada por diversas entidades, por exemplo instituições de ensino superior de saúde, organizações de proteção civil e associações do setor. Trata-se de uma competência útil a docentes, a profissionais de primeira linha, a dirigentes associativos e a qualquer pessoa com responsabilidade sobre grupos.

Ver também as perguntas 80 (como ajudar alguém) e 107 (perturbação de stresse pós-traumático).

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