Perturbações · Pergunta 101
O que é a perturbação obsessivo-compulsiva?
A perturbação obsessivo-compulsiva caracteriza-se pela presença de obsessões, de compulsões ou de ambas, com consumo significativo de tempo — convencionalmente mais de uma hora por dia — ou com sofrimento e repercussão na funcionalidades.
As obsessões são pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes e persistentes, experienciados como intrusivos e indesejados, que causam ansiedade ou mal-estar acentuados. As compulsões são comportamentos repetitivos ou atos mentais que a pessoa se sente compelida a executar em resposta a uma obsessão ou segundo regras rígidas, com o objetivo de reduzir o mal-estar ou de prevenir um acontecimento temido — sem que exista relação realista entre o ato e o que pretende evitar, ou quando este é claramente excessivo.
Os temas mais frequentes são a contaminação, com compulsões de lavagem; a dúvida e a responsabilidade por dano, com compulsões de verificação; a simetria e a exatidão, com compulsões de ordenação; e as obsessões de conteúdo agressivo, sexual ou blasfemo, com compulsões mentais de neutralização. Este último grupo merece atenção específica: os pensamentos intrusivos de conteúdo repugnante para a própria pessoa — imagens de agredir alguém que ama, de conteúdo sexual inadequado ou de blasfémia — são frequentes, causam vergonha extrema, raramente são comunicados e são frequentemente mal interpretados, quer pela pessoa quer por quem a ouve, como indício de intenção. Não o são: a característica definidora é precisamente o horror que causam e a sua incompatibilidade com os valores da pessoa.
Um dado que importa comunicar: os pensamentos intrusivos ocorrem na quase totalidade da população geral, com conteúdos indistinguíveis dos das pessoas com a perturbação. A diferença não está no conteúdo do pensamento, mas na interpretação que lhe é dada — a atribuição de significado moral e de probabilidade de concretização — e na resposta que se lhe dá, isto é, a neutralização.
O mecanismo de manutenção é o mesmo das restantes perturbações de ansiedade, com uma especificidade. A compulsão reduz a ansiedade a curto prazo e é fortemente reforçada, mas impede a aprendizagem de que a catástrofe temida não ocorreria de qualquer modo, e reforça a crença na sua necessidade. Acresce o fenómeno da fusão pensamento-ação: a crença de que pensar algo equivale moralmente a fazê-lo, ou de que pensar aumenta a probabilidade de ocorrer.
O tratamento psicológico de primeira linha é a exposição com prevenção de resposta, que consiste na exposição gradual e sistemática às situações e aos pensamentos temidos, com abstenção deliberada da compulsão. É exigente, produz desconforto elevado nas fases iniciais e apresenta taxas de resposta elevadas quando conduzida adequadamente. A terapia cognitiva focada nas crenças de responsabilidade e de fusão pensamento-ação é complemento útil.
quanto aos medicamentos, os inibidores seletivos da recaptação da serotonina apresentam eficácia demonstrada, habitualmente em doses superiores às utilizadas na depressão e com latência de resposta mais prolongada, que pode atingir dez a doze semanas. A clomipramina mantém indicação nos casos refratários. Nos quadros graves e resistentes, existem opções de potenciação e, em situações selecionadas, intervenções de neuromodulação.
Uma orientação para familiares merece destaque: a acomodação familiar — participar nos rituais, dar reasseguramento repetido, alterar rotinas para evitar desencadear obsessões — é extremamente comum, é motivada por afeto e agrava sistematicamente a perturbação. A sua redução gradual e negociada é componente do tratamento e deve ser feita com orientação profissional, não unilateralmente.
Ver também as perguntas 98 (perturbações de ansiedade) e 86 (papel da família).
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