Perturbações · Pergunta 98
O que são as perturbações de ansiedade?
As perturbações de ansiedade constituem o grupo mais prevalente de perturbações mentais. Em Portugal, o Estudo Epidemiológico Nacional identificou uma prevalência anual de 16,5%, o valor mais elevado entre todos os grupos diagnósticos (Caldas de Almeida & Xavier, 2013). Apresentam habitualmente início precoce e curso crónico com flutuações, e estão entre as condições com maior atraso entre o início dos sintomas e o primeiro tratamento.
É essencial distinguir a ansiedade normal da perturbação. A ansiedade é uma emoção adaptativa que prepara o organismo para lidar com ameaça: aumenta a vigilância, mobiliza recursos energéticos e melhora o desempenho até um nível ótimo, a partir do qual passa a degradá-lo. Sem ansiedade não haveria preparação para exames, cautela na travessia da rua nem antecipação de problemas.
A perturbação define-se por quatro características. A desproporção face à ameaça real. A persistência para além da situação que a desencadeou. A repercussão na funcionalidade, com evitação de situações, lugares ou atividades. E o sofrimento significativo. O critério mais informativo na prática é a evitação: quando a pessoa começa a organizar a vida em torno da prevenção da ansiedade, o quadro instalou-se.
O mecanismo central que mantém estas perturbações é bem compreendido e explica o tratamento. A evitação — de situações, de sensações corporais, de pensamentos — produz alívio imediato e é, por isso, fortemente reforçada. Mas impede a aprendizagem de que a situação evitada é tolerável ou não perigosa, pelo que o medo se mantém e tende a generalizar-se. É este ciclo que a exposição terapêutica interrompe.
Os comportamentos de segurança merecem menção específica, por serem menos visíveis do que a evitação e igualmente prejudiciais. Consistem em ações que a pessoa executa para tornar a situação suportável: levar medicação sempre consigo sem a tomar, sentar-se junto à saída, ter alguém disponível ao telefone, verificar repetidamente. Permitem enfrentar a situação, mas atribuem o resultado favorável ao comportamento de segurança e não à ausência de perigo, pelo que impedem igualmente a aprendizagem.
O grupo inclui várias entidades com apresentações distintas: a perturbação de ansiedade generalizada, a perturbação de pânico, a agorafobia, a perturbação de ansiedade social, as fobias específicas, o mutismo seletivo e a perturbação de ansiedade de separação. Em sistemas de classificação atuais, a perturbação obsessivo-compulsiva e a perturbação de stresse pós-traumático foram deslocadas para agrupamentos próprios, embora partilhem mecanismos.
Uma nota transversal sobre o tratamento: as perturbações de ansiedade estão entre as condições com melhor resposta às intervenções disponíveis, e a terapia cognitivo-comportamental com exposição é primeira linha em todas as orientações. Apesar disso, o tempo médio até ao primeiro tratamento adequado conta-se em anos, e uma parte substancial das pessoas é tratada apenas com ansiolíticos, que aliviam o sintoma sem interromper o mecanismo e cujo uso prolongado acarreta riscos próprios.
Ver também as perguntas 99 (ansiedade generalizada e pânico) e 66 (ataque de pânico).
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