Tratamento e recuperação · Pergunta 55
O que é o autocuidado e porque é que a doença mental o compromete?
O autocuidado designa o conjunto de atividades que a pessoa inicia e executa em seu próprio benefício para manter a vida, a saúde e o bem-estar. A Organização Mundial da Saúde define-o como a capacidade de promover a saúde, prevenir a doença, manter a saúde e lidar com a doença e a incapacidade, com ou sem apoio profissional. É um conceito que a Enfermagem desenvolveu de forma particularmente aprofundada — de Orem, que o organizou em torno da capacidade de agir em benefício próprio, a formulações mais recentes como a de Riegel et al. (2012), que o descreve como processo de manutenção, de monitorização e de gestão aplicável a qualquer condição crónica — e que hoje se articula com os de autogestão e de recuperação sem se confundir com eles.
Convém distinguir os três. O autocuidado é o conceito mais amplo e abrange qualquer pessoa, tenha ou não doença: alimentar-se, dormir, cuidar da higiene, movimentar-se, manter relações, procurar cuidados quando necessário. A autogestão, tratada na pergunta 54, refere-se especificamente à gestão de uma condição estabelecida — o regime terapêutico, os sinais de recaída, o plano de resposta. A recuperação, tratada na pergunta 52, designa o processo de construção de uma vida com sentido. O autocuidado sustenta os outros dois: sem ele, nem a autogestão nem a recuperação se realizam.
É útil distinguir também três tipos de necessidades. As universais, comuns a todas as pessoas — ar, água, alimentação, eliminação, atividade e repouso, interação e solidão, prevenção de perigos, participação social. As de desenvolvimento, ligadas às transições do ciclo de vida — a adolescência, a parentalidade, a reforma, o luto. E as decorrentes de desvio de saúde, que surgem quando existe doença — tomar medicação, vigiar possíveis efeitos secundários, comparecer a consultas, adaptar a vida às limitações. A doença mental gera exigências neste terceiro grupo ao mesmo tempo que reduz a capacidade de responder aos dois primeiros, e é esta conjugação que a torna particularmente exigente.
A capacidade de cuidar de si — aquilo a que a literatura de Enfermagem chama agência de autocuidado — não é fixa. Depende de conhecimento, de competências, de motivação, de energia, de função executiva e de recursos materiais. E é precisamente esta capacidade que várias perturbações mentais comprometem, por mecanismos identificáveis que importa nomear.
Na depressão, a avolição e a anedonia retiram o impulso de iniciar e a expectativa de recompensa que o sustenta; a fadiga desproporcionada torna custosa qualquer tarefa; a lentificação psicomotora prolonga o tempo necessário; e a autodesvalorização produz a convicção de não merecer o cuidado. Na esquizofrenia e nas psicoses, os sintomas negativos — avolição, embotamento, empobrecimento do discurso — e o compromisso das funções executivas afetam diretamente o planeamento e a sequenciação das tarefas. Na mania, o autocuidado é abandonado por deslocação da atenção e por redução da necessidade percebida de sono e de alimentação. Nas perturbações de ansiedade, a evitação pode impedir a ida a consultas de medicina, de medicina dentária ou ao ginásio. Nas dependências, o consumo desloca progressivamente todas as outras prioridades.
A medicação acrescenta a sua própria contribuição: a sedação, o embotamento emocional, o aumento de peso, a xerostomia e as alterações do movimento reduzem, cada uma à sua maneira, a disposição e a capacidade para cuidar de si.
Daqui decorre a afirmação mais importante desta resposta. Quando uma pessoa com depressão deixa de tomar banho, não é preguiça. Quando uma pessoa com esquizofrenia deixa a casa em desordem, não é desleixo. Quando alguém falta repetidamente às consultas, não é desinteresse. São manifestações da própria condição, tão legítimas como a febre numa infeção — e interpretá-las como falha de carácter produz vergonha, que agrava o retraimento e fecha o ciclo.
As consequências do défice prolongado de autocuidado são mensuráveis e explicam em larga medida o excesso de mortalidade nesta população. A metanálise de Kisely et al. (2015) documentou que as pessoas com doença mental grave apresentam probabilidade substancialmente aumentada de perda total de dentes face à população geral — indicador que raramente é considerado clínico, mas que reflete anos de compromisso da higiene, de xerostomia induzida por medicamentos, de dieta desequilibrada e de dificuldade de acesso a cuidados. O mesmo padrão se repete no rastreio oncológico, na vigilância cardiometabólica e na atividade física.
A resposta a este problema não é exigir esforço. É reconhecer o défice, adaptar a exigência à capacidade disponível em cada momento e prestar o apoio necessário até que a capacidade se restabeleça — matéria da pergunta seguinte.
Ver também as perguntas 54 (autogestão) e 56 (reconstruir o autocuidado).
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