Crise · Pergunta 65
O que é uma crise em saúde mental?
Designa-se por crise o estado agudo em que os recursos habituais da pessoa deixam de ser suficientes para lidar com a situação que enfrenta, com repercussão significativa na funcionalidade, alteração do juízo crítico ou risco para a segurança. A definição é funcional e não diagnóstica: uma crise não corresponde a uma categoria clínica, mas a um estado de desequilíbrio entre exigências e recursos.
As manifestações mais frequentes incluem a ideação suicida com intensidade ou concretude crescentes; o comportamento de autolesão; o ataque de pânico, isolado ou recorrente; a agitação psicomotora, com ou sem agressividade; os sintomas psicóticos agudos, por exemplo alucinações, delírios e desorganização do pensamento; a reação aguda ao stresse após acontecimento traumático; o quadro de intoxicação ou de privação de substâncias; e a incapacidade súbita de assegurar as necessidades básicas.
Duas características da crise sustentam toda a intervenção. A primeira é a sua natureza temporalmente limitada: a maioria dos estados de crise resolve-se em horas ou em dias, e a intensidade do sofrimento no momento não ajuda a prever a sua duração. Esta característica fundamenta estratégias de adiamento e de redução imediata do risco que, à distância, poderiam parecer insuficientes. A segunda é a reversibilidade: a intervenção atempada altera o resultado de forma mensurável, o que confere valor à resposta imediata mesmo quando modesta.
A teoria da crise identifica ainda uma terceira característica: o seu carácter de ponto de viragem. O estado de desequilíbrio suspende temporariamente os padrões habituais e torna a pessoa mais permeável à influência externa e à mudança. Esta permeabilidade explica que intervenções breves em momento de crise possam produzir efeitos desproporcionados à sua duração, em qualquer dos sentidos — o que impõe responsabilidade acrescida a quem intervém.
É útil distinguir a crise da recaída e da emergência. A recaída designa o regresso de sintomas de uma condição conhecida e pode instalar-se gradualmente, sem carácter agudo. A emergência designa a situação em que existe risco imediato para a vida ou para a integridade física e que exige ativação de meios. Uma crise pode não ser emergência, e uma emergência pode ocorrer sem crise no sentido psicológico do termo.
Os fatores precipitantes mais frequentes incluem perdas — de pessoas, de emprego, de estatuto, de saúde —, humilhação e vergonha públicas, conflito relacional agudo, alta hospitalar recente, interrupção abrupta de medicação, privação de sono, intoxicação e datas com significado pessoal. O conhecimento dos precipitantes individuais permite antecipação.
Do ponto de vista prático, três princípios orientam a resposta a qualquer crise: assegurar a segurança física imediata, por exemplo a de quem intervém; reduzir a estimulação e ganhar tempo, dado que a intensidade decai; e restabelecer ligação, através da presença de alguém e do contacto com a rede de apoio ou com os serviços.
Ver também as perguntas 72 (quando recorrer à urgência) e 79 (depois de uma crise).
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