Crise · Pergunta 66
O que fazer perante um ataque de pânico?
O ataque de pânico consiste num episódio abrupto de medo ou de desconforto intenso, com pico em poucos minutos, acompanhado de sintomas físicos marcados — palpitações, falta de ar ou sensação de sufoco, dor ou aperto torácico, tremor, sudação, arrepios ou afrontamentos, náusea, tonturas, formigueiros, sensação de irrealidade — e frequentemente do receio de morrer, de enlouquecer ou de perder o controlo. É extremamente desconfortável e não é perigoso. Não causa enfarte, não causa asfixia, não causa loucura e não causa morte.
Compreender o mecanismo é, em si, terapêutico. O ataque resulta da ativação do sistema de resposta a ameaça na ausência de ameaça real. Os sintomas corporais são as consequências fisiológicas normais dessa ativação: a taquicardia prepara o esforço, a hiperventilação aumenta a oxigenação, a sudação dissipa calor. O que transforma esta ativação em pânico é a interpretação catastrófica dos sintomas — «estou a ter um enfarte», «vou desmaiar», «vou perder o controlo» — que aumenta o medo, que por sua vez intensifica os sintomas, num ciclo de retroalimentação.
A intervenção assenta em quatro passos. Primeiro, nomear o que se passa: reconhecer que se trata de um ataque de pânico interrompe a interpretação catastrófica que alimenta o ciclo. Segundo, regular a respiração, com expiração mais longa do que a inspiração — quatro segundos a inspirar, seis a expirar — sem forçar inspirações profundas, que agravam a hiperventilação. Terceiro, usar ancoragem sensorial para deslocar a atenção do interior para o exterior. Quarto, e decisivo a longo prazo, permanecer no local se for seguro, em vez de fugir.
Este quarto passo merece explicação, por ser contraintuitivo. A fuga produz alívio imediato e é, por isso, fortemente reforçada. Mas ensina ao sistema que o perigo era real e que só a fuga o evitou, o que aumenta a probabilidade e a intensidade de episódios futuros e inicia a evitação progressiva de situações. É este mecanismo que transforma ataques isolados em perturbação de pânico com agorafobia. Permanecer, mesmo com desconforto elevado, permite a aprendizagem de que o ataque termina sem consequências.
Perante um primeiro episódio, sobretudo com dor torácica, é prudente a observação médica para exclusão de causa orgânica, por exemplo cardíaca, respiratória, tiroideia ou relacionada com substâncias. Excluída a causa orgânica, a repetição de idas à urgência tende a reforçar a crença de perigo e deve ser evitada.
Episódios recorrentes acompanhados de preocupação persistente com novos ataques ou de alteração do comportamento para os evitar configuram perturbação de pânico. Trata-se de uma das condições com melhor resposta ao tratamento: a terapia cognitivo-comportamental com exposição interocetiva — exposição deliberada às sensações corporais temidas — apresenta taxas de remissão elevadas e ganhos mantidos após o termo do tratamento. Existe também tratamento com medicamentos eficaz.
Para quem acompanha alguém em ataque de pânico: manter a calma e falar em tom pausado; não minimizar («não é nada», «acalma-te»), o que aumenta a sensação de incompreensão; lembrar que o episódio passa e que não é perigoso; respirar em conjunto, com marcação do ritmo; não incentivar a fuga do local se for seguro permanecer; e, depois do episódio, evitar transformar o acontecimento em drama, o que reforça a sua carga.
Ver também as perguntas 27 (relaxamento) e 98 (perturbações de ansiedade).
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