Perturbações · Pergunta 100

O que são a ansiedade social e as fobias específicas?

A perturbação de ansiedade social caracteriza-se por medo acentuado e persistente de situações em que a pessoa pode ser observada ou avaliada por outros, com receio de agir de forma humilhante ou de manifestar sintomas de ansiedade que sejam notados. As situações temidas incluem falar em público, comer ou beber diante de outros, iniciar ou manter conversas, participar em reuniões, ser apresentado, usar casas de banho públicas ou simplesmente ser observado.

É uma das perturbações mais prevalentes e das mais subdiagnosticadas, em parte porque é frequentemente confundida com timidez, que é um traço de temperamento comum e não uma condição clínica. A distinção assenta no compromisso da funcionalidade: a timidez causa desconforto e é compatível com uma vida plena; a ansiedade social leva à recusa de oportunidades académicas e profissionais, ao isolamento, ao consumo de álcool como facilitador social e a taxas elevadas de depressão secundária.

O início é habitualmente precoce, na adolescência, e o curso tende a ser crónico sem tratamento. O atraso até ao primeiro tratamento é dos mais longos entre todas as perturbações mentais — frequentemente superior a uma década —, em parte porque a própria natureza da condição dificulta a procura de ajuda, que exige exposição a uma situação de avaliação.

Os mecanismos de manutenção incluem a atenção autofocada durante as situações sociais, que impede a pessoa de recolher informação sobre a reação real dos outros; o processamento antecipatório, com ensaio mental das catástrofes; o processamento pós-acontecimento, com revisão ruminativa do desempenho; e os comportamentos de segurança, como evitar contacto visual, preparar frases, falar pouco ou consumir álcool antes de eventos.

As fobias específicas caracterizam-se por medo acentuado e desproporcionado de um objeto ou situação determinados — animais, altura, espaços fechados, sangue, injeções, voar, tempestades —, com evitação ou tolerância com sofrimento intenso. São as perturbações de ansiedade mais prevalentes e, simultaneamente, as menos frequentemente tratadas, o que se explica por muitas pessoas conseguirem organizar a vida em torno da evitação sem grande custo.

A fobia de sangue, injeções e ferimentos merece nota específica por apresentar um padrão fisiológico distinto: em vez de taquicardia, produz uma resposta bifásica com queda da tensão arterial e da frequência cardíaca, que pode conduzir a síncope. Isto tem consequências práticas — a técnica de tensão aplicada, que consiste em contrair grupos musculares para elevar a tensão arterial, é específica desta fobia e não se aplica às restantes — e clínicas, dado que pode levar à evitação de cuidados de saúde e de doação de sangue.

O tratamento de primeira linha para ambos os quadros é a terapia cognitivo-comportamental com exposição. Nas fobias específicas, a exposição pode ser notavelmente eficiente: existem protocolos de sessão única prolongada, com duração de duas a três horas, com taxas de sucesso elevadas e ganhos mantidos. Na ansiedade social, o tratamento é mais prolongado e combina exposição com trabalho cognitivo sobre as crenças acerca do desempenho e da avaliação, e com a eliminação dos comportamentos de segurança, cuja manutenção reduz substancialmente a eficácia da exposição.

quanto aos medicamentos, os inibidores seletivos da recaptação da serotonina apresentam evidência na ansiedade social. As fobias específicas não têm indicação farmacológica estabelecida, exceto para utilização pontual em situações inevitáveis.

Ver também as perguntas 98 (perturbações de ansiedade) e 47 (psicoterapias com evidência).

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