Perturbações · Pergunta 124
O que são as dependências sem substância?
As dependências sem substância — também designadas por dependências comportamentais — caracterizam-se por um padrão de comportamento repetitivo que a pessoa deixa de conseguir controlar, que assume prioridade crescente sobre outros interesses e atividades, e que se mantém ou intensifica apesar das consequências negativas. Os critérios são análogos aos das perturbações por uso de substâncias, e a investigação em neuroimagem documenta o envolvimento dos mesmos circuitos de recompensa, com libertação de dopamina no estriado ventral e progressiva diminuição da resposta a recompensas naturais.
Duas condições estão hoje formalmente reconhecidas nos sistemas de classificação. A perturbação de jogo a dinheiro, incluída há mais tempo, e a perturbação de jogos digitais, introduzida na décima primeira revisão da Classificação Internacional de Doenças — decisão que gerou debate, entre quem a considerou necessária face ao dano observado e quem receou a patologização de comportamento comum na juventude.
Quanto à frequência, a revisão sistemática de Calado e Griffiths (2016), com autoria portuguesa, situou a prevalência de jogo problemático entre 0,12% e 5,8% consoante o país e o instrumento utilizado, com valores europeus entre 0,12% e 3,4%. Para os jogos digitais, a metanálise de Stevens et al. (2021) estimou a prevalência global da perturbação em 3,05%, com valores substancialmente inferiores nos estudos com amostras representativas.
Em Portugal, o Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População Geral relativo a 2022 (Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências, 2023) estimou que 1,3% da população apresenta sinais de risco de jogo problemático e 0,6% evidencia dependência, valores superiores aos registados em 2012. Cerca de 56% da população declarou ter jogado a dinheiro, com predomínio do Euromilhões e da raspadinha. A dependência é mais frequente em homens, com concentração nos grupos etários dos 25 aos 34 e dos 45 aos 54 anos. Entre os mais jovens, os dados são particularmente relevantes: cerca de 16% dos jovens de 18 anos declararam apostar em linha, e 18% dos estudantes entre os 13 e os 18 anos jogaram a dinheiro no último ano.
Este crescimento tem explicações identificáveis e em larga medida estruturais. A disponibilidade permanente através do telemóvel eliminou as barreiras de tempo e de lugar que antes limitavam o comportamento. A publicidade a apostas desportivas, sobretudo associada a competições e a figuras admiradas pelos jovens, normalizou a prática. Os mecanismos de reforço intermitente e de quase-vitória, deliberadamente incorporados no desenho dos produtos, maximizam a persistência. E os elementos de jogo introduzidos em videojogos — por exemplo as caixas de recompensa aleatória — expõem menores a estruturas de aposta antes de terem idade legal para apostar.
Existem outros padrões cuja natureza aditiva é objeto de debate e que não têm, até ao momento, estatuto diagnóstico consolidado: o comportamento sexual compulsivo, incluído na Classificação Internacional de Doenças como perturbação do controlo dos impulsos e não como dependência; as compras compulsivas; a utilização problemática de redes sociais; e o exercício físico compulsivo, frequentemente associado a perturbações do comportamento alimentar. A cautela recomendada é dupla: nem transformar todo o comportamento intenso em patologia, nem desvalorizar o sofrimento e a incapacidade quando existem.
Os sinais de alerta são reconhecíveis e comuns às várias formas: perda de controlo sobre o tempo ou o dinheiro despendidos; ocultação e mentira sobre a extensão do comportamento; recuperação de perdas com apostas crescentes; irritabilidade quando impedido; abandono de atividades e de relações; dívidas, empréstimos e venda de bens; e continuação apesar de consequências conhecidas. Nas famílias, o indicador mais precoce é frequentemente financeiro, e não comportamental.
Quanto ao tratamento, a terapia cognitivo-comportamental apresenta a melhor evidência, com componentes específicos de reestruturação das crenças sobre o acaso e o controlo — por exemplo a ilusão de controlo e a falácia do jogador — de exposição com prevenção de resposta e de prevenção de recaída. A entrevista motivacional é útil na fase inicial. Não existe tratamento com medicamentos com indicação aprovada, embora existam ensaios com antagonistas dos opioides. As medidas estruturais têm papel determinante: a autoexclusão, disponível em Portugal junto do Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos, os limites de depósito, a restrição da publicidade e o bloqueio de aplicações.
Em Portugal, o tratamento é assegurado gratuitamente pela rede de comportamentos aditivos e dependências, sem necessidade de referenciação, e existem associações de ajuda mútua dedicadas. Para as famílias, duas orientações práticas: proteger o património comum, o que é legítimo e não é abandono; e evitar o pagamento repetido das dívidas sem plano de tratamento, dado que remove a consequência e mantém o comportamento.
Ver também as perguntas 122 (perturbações por uso de substâncias) e 123 (tratamento das dependências).
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