Tratamento e recuperação · Pergunta 179
O que são terapias assistidas por psicadélicos e o que mostra a evidência?
Terapia assistida por psicadélicos designa um modelo em investigação no qual uma substância é administrada após triagem e preparação, durante uma sessão acompanhada, e seguida de apoio psicológico. Não é apenas «tomar um psicadélico». O ambiente, as expectativas, a relação com a equipa e as sessões de preparação e integração podem influenciar o resultado e tornam difícil separar o efeito do medicamento do restante tratamento.
Substâncias diferentes, evidência diferente
Psilocibina, LSD e DMT são psicadélicos clássicos, com ação predominante no recetor 5-HT2A da serotonina. A MDMA é uma substância sintética com efeitos estimulantes e de aumento da proximidade emocional; não é um psicadélico clássico. Cetamina e escetamina são anestésicos dissociativos — medicamentos que podem produzir sensação de separação do corpo ou do ambiente — e atuam principalmente no sistema do glutamato. Incluí-las sob o mesmo rótulo confunde mecanismos, riscos e estado regulamentar.
Na depressão, alguns ensaios de psilocibina com apoio psicológico encontraram melhoria rápida. No ensaio de Raison et al. (2023), uma dose de psilocibina produziu maior redução dos sintomas do que niacina, mantida durante seis semanas. Contudo, um ensaio de 2026 com 144 pessoas com depressão resistente não encontrou diferença estatisticamente significativa no resultado principal: responderam 17,0% com 25 mg, 12,5% com 5 mg e 10,6% com placebo ativo Mertens et al. (2026). O conjunto é promissor, mas inconsistente e ainda não demonstra uma cura duradoura.
Em pessoas com cancro ou outra doença potencialmente fatal, pequenos ensaios sugerem redução de depressão, ansiedade e sofrimento existencial. Revisões independentes classificam, porém, a certeza como baixa ou muito baixa devido ao número reduzido de participantes, seleção rigorosa e dificuldade de ocultar o grupo recebido. Para perturbações por uso de álcool ou tabaco existem sinais iniciais, mas poucos ensaios e certeza baixa.
Na perturbação de stresse pós-traumático, ensaios de MDMA associada a psicoterapia encontraram reduções grandes dos sintomas; num ensaio de fase 3 com 90 participantes, a diferença padronizada foi d = 0,91 dois meses após a última sessão Mitchell et al. (2021). Uma metanálise de 2026 confirmou benefício médio grande, mas classificou a certeza global como muito baixa devido a amostras pequenas, heterogeneidade e elevado risco de se descobrir quem recebeu MDMA Fares-Otero et al. (2026). Resultados promissores não equivalem a aprovação.
O problema do cegamento e da expectativa
Num ensaio ideal, participantes e avaliadores não sabem que intervenção foi recebida. Com substâncias que alteram intensamente a perceção, quase todos conseguem adivinhar, e a expectativa pode aumentar o efeito medido. Uma revisão encontrou risco de viés elevado em grande parte dos ensaios de medicina psicadélica Hovmand et al. (2023). Além disso, faltam comparações diretas com psicoterapias e medicamentos já estabelecidos e seguimentos longos.
Estado em Portugal, em agosto de 2026
Psilocibina, LSD, DMT e MDMA não estão autorizados como medicamentos psiquiátricos de rotina na União Europeia ou em Portugal; o uso terapêutico permanece em ensaios clínicos ou outros mecanismos excecionais legalmente autorizados Destoop et al. (2025). O registo europeu atualizado em agosto de 2026 inclui escetamina, mas não estes psicadélicos como medicamentos autorizados Comissão Europeia, 2026.
A escetamina intranasal está autorizada para depressão resistente, sob supervisão, e obteve financiamento hospitalar em Portugal com critérios clínicos definidos pelo INFARMED (2025). A cetamina racémica está autorizada como anestésico e o uso na depressão é fora da indicação aprovada. Nenhuma destas duas é um psicadélico clássico.
Ver também as perguntas 8 (avaliar informação), 46 (possíveis efeitos secundários), 51 (depressão resistente), 101 (stresse pós-traumático) e 180 (riscos e ofertas).
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