Fundamentos · Pergunta 8

O que se passa no cérebro de quem tem uma perturbação mental?

Convém começar pelo que a ciência não demonstrou. Nenhuma perturbação mental corresponde, à data, a uma lesão cerebral única, localizada e identificável, que permita diagnóstico por exame de imagem ou por análise laboratorial. As alterações descritas são distribuídas, probabilísticas, de pequena magnitude ao nível individual e amplamente sobreponíveis entre diagnósticos diferentes. Esta é uma informação de literacia essencial, porque contraria tanto a promessa de exames que revelam a doença como a suspeita de que, sem lesão visível, o sofrimento não é real.

Os neurotransmissores são moléculas que transportam sinais entre neurónios — o equivalente funcional de mensagens trocadas entre células nervosas. A serotonina, a dopamina, a noradrenalina, o glutamato e o ácido gama-aminobutírico participam na regulação do humor, da atenção, da motivação, do medo e do sono. Daqui derivou a formulação popular do desequilíbrio químico, segundo a qual a depressão seria causada por falta de serotonina e os antidepressivos a corrigiriam. Esta formulação é uma simplificação que a evidência não sustenta como explicação causal.

A revisão sistemática de revisões conduzida por Moncrieff et al. (2023) concluiu que as principais linhas de investigação sobre serotonina — concentrações de metabolitos, ligação a recetores, estudos de depleção de triptofano e associação com o gene transportador — não oferecem evidência consistente de que a depressão seja causada por serotonina diminuída. O trabalho suscitou contestação metodológica substantiva, por exemplo de Jauhar et al. (2023), que argumentaram que a metodologia adotada subvaloriza achados relevantes e que o sistema serotoninérgico está implicado na depressão, ainda que não como causa simples. Uma leitura honesta retém as duas posições: a hipótese do défice de serotonina como explicação causal não se confirmou, e daí não decorre que a serotonina seja irrelevante.

Importa dizer com clareza o que esta controvérsia não significa. Não significa que os antidepressivos não funcionem. A eficácia de um tratamento é estabelecida por ensaios clínicos e não depende de se conhecer o seu mecanismo — a aspirina foi eficaz durante décadas antes de se compreender como atuava. Interromper medicação por ter lido que a teoria da serotonina caiu é uma inferência errada, com risco clínico real.

A compreensão atual é menos localizada e mais relacional. As perturbações mentais associam-se a alterações no funcionamento de redes cerebrais distribuídas: circuitos que envolvem a amígdala e o córtex pré-frontal na regulação da resposta à ameaça; o hipocampo na memória e na resposta ao stresse prolongado; os circuitos de recompensa na motivação e no prazer; e a rede de modo padrão nos processos de ruminação e de autorreferência. Estas alterações são melhor descritas como diferenças de eficiência e de conectividade do que como avarias localizadas.

O ponto mais relevante para quem vive com uma perturbação mental é o da plasticidade, e opera nos dois sentidos. A doença não tratada altera o cérebro — a duração da doença sem tratamento é um dos preditores mais consistentes de pior evolução em várias condições. E o tratamento também o altera: a medicação, o exercício físico e a psicoterapia produzem alterações mensuráveis na função cerebral. Este último dado merece destaque, porque desfaz uma dicotomia persistente: a psicoterapia não é um tratamento menos biológico do que a medicação; é uma intervenção que atua sobre o mesmo órgão por outra via.

Uma advertência final, apoiada em evidência sólida. Explicar a doença mental em termos exclusivamente biológicos e genéticos reduz a atribuição de culpa à pessoa, o que é desejável, mas produz simultaneamente efeitos indesejados: a meta-análise de Kvaale et al. (2013) documentou que as explicações biogenéticas aumentam o pessimismo quanto ao prognóstico e a perceção de perigosidade e de diferença. A formulação mais útil não é «é uma doença do cérebro como outra qualquer», mas «é uma condição de saúde com determinantes biológicos, psicológicos e sociais, que responde a tratamento e cuja evolução depende também do que fizermos».

Ver também as perguntas 48 (medicação) e 46 (psicoterapia).

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