Perturbações · Pergunta 130
Que grupos enfrentam riscos específicos para a saúde mental e porquê?
Algumas populações apresentam prevalências de perturbação mental substancialmente superiores às da população geral, e a explicação não reside em qualquer vulnerabilidade intrínseca, mas na exposição diferencial a stresse social. O modelo do stresse de minoria descreve três mecanismos: a exposição a acontecimentos externos de discriminação, violência e rejeição; a antecipação vigilante desses acontecimentos, que produz ativação crónica; e a interiorização do estigma, com o consequente autoconceito negativo e ocultação. A estes acresce, em várias populações, o menor acesso a cuidados adequados.
As pessoas lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer, intersexo e assexuais apresentam, de forma consistente em estudos internacionais, prevalências mais elevadas de depressão, de perturbações de ansiedade, de consumo de substâncias e, em particular, de ideação e de comportamento suicidário. O risco é especialmente elevado em pessoas trans e em pessoas jovens. Os fatores protetores identificados são igualmente consistentes: a aceitação familiar, que é o preditor mais robusto; o ambiente escolar seguro; a existência de pares e de comunidade; o acesso a cuidados afirmativos; e o enquadramento legal protetor. Deve afirmar-se sem ambiguidade que as chamadas terapias de conversão são cientificamente desacreditadas, associadas a dano documentado — por exemplo aumento do risco de comportamento suicidário — e objeto de proibição em ordenamentos jurídicos crescentes.
As pessoas migrantes e refugiadas apresentam igualmente risco acrescido, por determinantes distribuídos pelas fases pré-migratória, migratória e pós-migratória — matéria tratada em detalhe na pergunta anterior.
As pessoas com deficiência e as pessoas com doença crónica apresentam prevalências mais elevadas de perturbação mental, associadas a dor, a limitação funcional, a dependência, a discriminação e a barreiras de acesso. Merece nota o fenómeno do ensombramento diagnóstico, em que sintomas de saúde mental são atribuídos à condição de base e não avaliados, com atraso significativo no tratamento.
Os profissionais de saúde constituem população de risco documentado, com prevalências de presença de sintomas de depressão, de ansiedade, de exaustão e de comportamento suicidário superiores às da população geral em vários estudos. Os fatores identificados incluem a carga horária, o trabalho por turnos, a exposição continuada ao sofrimento e à morte, o dano moral decorrente da impossibilidade de prestar os cuidados considerados adequados, e uma cultura profissional que desencoraja a expressão de vulnerabilidade. O receio de consequências profissionais e a preocupação com a confidencialidade constituem barreiras específicas à procura de ajuda, que justificam a existência de programas dedicados e independentes.
As pessoas em situação de sem-abrigo, as pessoas em reclusão e as pessoas em situação de pobreza extrema apresentam as prevalências mais elevadas de perturbação mental grave e o pior acesso a cuidados, numa relação bidirecional em que a doença pode desencadear a exclusão e a exclusão agrava a doença. O modelo de habitação primeiro, que fornece habitação estável sem exigir previamente abstinência ou adesão a tratamento, apresenta evidência favorável na estabilização habitacional e é exemplo de intervenção estrutural com efeito clínico.
Duas implicações práticas atravessam este conjunto. A primeira: perguntar. A avaliação clínica deve incluir a exploração de experiências de discriminação, da situação habitacional, jurídica e económica, e da existência de rede — dimensões que determinam resultados e que não são espontaneamente comunicadas. A segunda: a intervenção eficaz nestas populações é frequentemente estrutural e não apenas clínica, e a sua omissão limita o alcance de qualquer tratamento tecnicamente correto.
Ver também as perguntas 34 (fatores de risco) e 12 (estigma).
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