Perturbações · Pergunta 128

Que particularidades tem a saúde mental nas pessoas idosas?

A primeira particularidade é conceptual e tem consequências práticas graves: a depressão, a ansiedade e o sofrimento psicológico não constituem parte normal do envelhecimento. A atribuição de sintomas depressivos à idade — «é normal, com a idade que tem» — é a principal causa de subdiagnóstico e de subtratamento nesta população, e é partilhada pelas próprias pessoas, pelas famílias e por profissionais.

A apresentação clínica difere e contribui para o não reconhecimento. A depressão manifesta-se mais frequentemente por queixas físicas, por apatia, por irritabilidade, por queixas de memória e por ansiedade do que por tristeza verbalizada. A anedonia e a perda de interesse podem ser confundidas com a redução natural de atividades. E a coexistência com doença física é frequente, com atribuição dos sintomas à condição médica.

A depressão pode afetar a concentração e a memória; depressão e demência podem coexistir e partilhar sintomas. Não é possível distingui-las pela impressão de que a pessoa se esforça mais ou menos, nem por uma resposta isolada. É necessária avaliação da evolução, do quotidiano, da saúde física e da medicação, com apoio de pessoas próximas quando a pessoa consente National Institute on Aging, s.d..

O risco de suicídio nas pessoas idosas merece destaque, por ser sistematicamente subestimado. As taxas de mortalidade por suicídio são, em Portugal como na generalidade dos países europeus, mais elevadas nas idades avançadas, sobretudo em homens. A letalidade das tentativas é superior, os sinais de aviso são menos evidentes, a ideação é menos frequentemente comunicada e o contacto com serviços de saúde nas semanas anteriores é comum — o que é simultaneamente uma oportunidade perdida e uma indicação clara de onde intervir.

Os fatores de risco específicos incluem o luto, sobretudo do cônjuge; o isolamento e a perda de rede; a dor crónica; a doença física incapacitante; a perda de autonomia e o receio de se tornar um fardo; a institucionalização; os défices sensoriais não corrigidos; e a insónia. A perda de papéis após a reforma é fator relevante e insuficientemente considerado.

A medicação exige cautelas próprias. A polimedicação é frequente e aumenta o risco de interações e de possíveis efeitos secundários. As alterações farmacocinéticas e farmacodinâmicas associadas à idade recomendam iniciar com doses baixas e aumentar lentamente. Vários medicamentos com ação anticolinérgica, as benzodiazepinas e alguns antipsicóticos associam-se a alterações cognitivas, a quedas, a fraturas e, no caso dos antipsicóticos em pessoas com demência, a aumento da mortalidade. A revisão periódica da medicação, com desprescrição do que não é necessário, é intervenção com benefício documentado.

O tratamento é eficaz nesta população, e este é o dado mais importante a comunicar. Os antidepressivos apresentam eficácia comparável à observada em pessoas adultas mais jovens, e a psicoterapia — por exemplo a terapia cognitivo-comportamental, a terapia de resolução de problemas e a psicoterapia interpessoal — tem eficácia demonstrada e é frequentemente preferida pelas próprias pessoas. A eletroconvulsivoterapia mantém indicação e boa tolerabilidade na depressão grave nesta faixa etária.

Completam a intervenção medidas frequentemente decisivas: a correção de défices auditivos e visuais; o tratamento da dor; a promoção da atividade física adaptada; a manutenção de ligação social e de papéis com significado; e a intervenção sobre a solidão, cujo impacto nesta população foi tratado na pergunta 24.

Ver também as perguntas 125 (demência) e 24 (relações sociais e solidão).

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