Saúde mental LGBTQIA+ · Pergunta 165

Que questões de saúde mental podem afetar pessoas bissexuais, assexuais ou com identidades menos visíveis?

Porque é que esta pergunta existe

A sigla agrupa e, ao agrupar, esconde. As pessoas bissexuais constituem o grupo mais numeroso dentro da população LGBTQIA+ e são o menos estudado e o menos visível. As pessoas assexuais raramente constam de qualquer material informativo. E as identidades não binárias são frequentemente tratadas como variante das identidades trans binárias, com necessidades que não são as mesmas. O resultado prático é que uma parte substancial das pessoas não se reconhece na informação disponível, incluída a que se destina a si.

Bissexualidade

A bissexualidade descreve a atração por mais do que um género, não necessariamente em igual grau nem em simultâneo. Não é fase, não é indecisão, não é passagem para outra identidade, e não depende da relação em que a pessoa se encontra no momento — uma pessoa bissexual numa relação com alguém de outro género continua bissexual.

O dado que importa é contraintuitivo e está documentado de forma consistente: as pessoas bissexuais apresentam, em vários estudos, indicadores de saúde mental piores do que as pessoas lésbicas e gays, com mais depressão, mais ansiedade, mais consumo de substâncias e mais ideação suicida. A explicação proposta é o apagamento: a bissexualidade é desacreditada tanto pelo meio heterossexual como pelo meio LGBTQIA+, o que produz uma dupla ausência de pertença — a pessoa não encontra comunidade em lugar nenhum, e a comunidade é precisamente um dos fatores protetores identificados na pergunta 155. Acresce a maior taxa de ocultação, porque a bissexualidade não é presumida e exige revelação repetida e explícita.

Na prática, isto significa que o pressuposto de que as pessoas bissexuais estão numa situação intermédia de risco é falso, e que a suposição de que quem está numa relação com alguém de outro género não enfrenta stresse de minoria é errada.

Assexualidade

A assexualidade descreve a ausência ou a escassez de atração sexual. É um espetro e distingue-se da atração romântica, que pode existir de forma independente — há pessoas assexuais com relações românticas e há pessoas que não têm nem uma nem outra. Não é disfunção sexual, não é consequência de trauma, não é resultado de baixo desejo por causa hormonal ou medicamentosa, e não é celibato, que é uma escolha comportamental.

A distinção clínica é relevante e é frequentemente falhada nos dois sentidos. As perturbações do desejo sexual definem-se pela presença de sofrimento clinicamente significativo; a assexualidade, quando é identidade, não cursa com esse sofrimento — o sofrimento, quando existe, decorre habitualmente da pressão externa, da patologização por profissionais e da dificuldade em encontrar relações que a acomodem. Propor tratamento a quem não tem queixa é intervenção iatrogénica. Por outro lado, uma redução recente e não desejada do desejo é queixa clínica e merece avaliação, incluída a de causas farmacológicas e endócrinas.

Identidades não binárias

Nem todas as pessoas trans se situam no masculino ou no feminino. As necessidades diferem: os documentos portugueses não preveem opção não binária, o que gera exposição administrativa constante; os serviços de saúde estão organizados em torno de duas categorias; e as intervenções desejadas, quando existem, podem ser parciais e não corresponder a nenhum percurso previsto. A pressão para escolher um dos lados, incluída a que ocorre dentro dos próprios serviços que prestam cuidados de afirmação, é fonte documentada de sofrimento.

O que fazer quem acompanha

Não presumir a partir da relação atual. Não pedir prova nem coerência ao longo do tempo — a identidade pode ser estável e a linguagem para a descrever pode mudar. Não tratar a assexualidade como problema a resolver nem a bissexualidade como etapa. E usar a linguagem que a pessoa usa, mesmo quando é nova.

Para os profissionais

Perguntar em vez de presumir, e perguntar de forma que permita respostas fora das duas categorias habituais. Registar a orientação e a identidade como a pessoa as descreve. E não interpretar a ausência de atração sexual como sintoma sem explorar se existe sofrimento associado.

Ver também as perguntas 155 (stresse de minoria) e 158 (cuidados afirmativos).

Informação geral: não substitui avaliação e cuidados individualizados. Consulte a política editorial e as fontes.