Situações e comportamentos · Pergunta 142
Recusa alimentar: como agir?
O que se passa e porquê
A recusa em comer não é uma entidade única e a resposta correta depende inteiramente da causa. Na depressão grave há perda de apetite e de iniciativa, e o esforço de comer é real. Nas perturbações do comportamento alimentar a restrição é intencional e sustentada por convicções sobre o peso e o corpo. Na psicose, a recusa decorre frequentemente de delírio de envenenamento ou de alucinações. Na demência avançada existe apraxia da deglutição e perda do reconhecimento dos alimentos. Na catatonia a recusa faz parte de um quadro que é emergência médica. E existem causas físicas que se apresentam como recusa: dor de dentes, candidíase oral, disfagia, obstipação, efeito de medicação, náusea.
Distinguir estas causas é a primeira tarefa. A pergunta que mais rapidamente orienta é: a pessoa não quer, não consegue, ou tem medo? Não querer aponta para depressão ou para oposição; não conseguir aponta para causa física, neurológica ou catatónica; ter medo aponta para delírio ou para perturbação alimentar.
O que a própria pessoa pode fazer
Quando o problema é a ausência de apetite ou de iniciativa, reduzir a exigência ajuda mais do que a força de vontade: refeições pequenas e frequentes em vez de pratos completos, alimentos de preparação nula, líquidos calóricos quando o sólido é impossível, e horário fixo em vez de esperar pela fome, que não regressa. Registar o que se conseguiu comer, sem juízo, dá informação útil à consulta e reduz a distorção da memória.
O que fazer quem acompanha
Excluir primeiro as causas físicas: boca, dentes, deglutição, obstipação, dor, medicação nova. Simplificar: menos comida no prato, sem pressão, sem contagem em voz alta, com companhia à mesa e sem televisão. Oferecer o que a pessoa gosta e não o que é nutricionalmente ideal — nesta fase, o objetivo é que coma. Aumentar a densidade calórica em vez do volume. Respeitar preferências e horários próprios.
Registar de forma objetiva o que foi ingerido e o peso, com periodicidade combinada, sem transformar a pesagem em confronto. Assegurar a hidratação, que é mais urgente do que a alimentação. E comunicar à equipa clínica quando a recusa se prolonga: existem critérios de gravidade que exigem intervenção, e o adiamento é o erro mais comum.
O que nunca fazer
Não forçar, não alimentar à força, não fazer chantagem afetiva, não transformar a refeição em campo de batalha. Não comentar o corpo, o peso ou a aparência, nem sequer em tom de elogio, sobretudo quando existe perturbação do comportamento alimentar. Não vigiar cada garfada nem contar em voz alta. Não usar a comida como moeda de troca. E não normalizar uma recusa prolongada com a ideia de que a pessoa comerá quando tiver fome — em várias destas condições, isso não sucede.
Quando é urgência
Recusa total de líquidos por mais de vinte e quatro horas. Sinais de desidratação: boca seca, urina escassa e escura, tonturas, confusão. Perda de peso rápida. Recusa alimentar no contexto de delírio de envenenamento, de catatonia ou de depressão grave com ideação suicida — nestes casos, a recusa pode ser uma forma passiva de morrer e deve ser tratada como tal. E, nas perturbações do comportamento alimentar, existem critérios objetivos de internamento urgente que envolvem índice de massa corporal, frequência cardíaca, tensão arterial e alterações eletrolíticas, e que devem ser avaliados por profissional.
Ver também as perguntas 115 (perturbações do comportamento alimentar) e 138 (mutismo).
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