Situações e comportamentos · Pergunta 143
Recusa em cuidar de si e das atividades de vida diária: o que fazer?
O que se passa e porquê
A recusa em tomar banho, vestir-se, lavar os dentes, arrumar a casa ou sair é, com frequência, lida como preguiça ou como desleixo, e é quase sempre outra coisa. Na depressão, a anedonia e a fadiga tornam cada tarefa desproporcionadamente custosa, e a pessoa não deixa de o fazer por não querer, mas por não conseguir iniciar. Nos sintomas negativos da esquizofrenia, existe redução da iniciativa que é sintoma e não escolha. Na demência, a sequência da tarefa perde-se — a pessoa sabe o que é um banho, mas não sabe por onde começar. Nas condições do neurodesenvolvimento, a dificuldade de função executiva e a hipersensibilidade sensorial explicam recusas específicas, e a água ou a textura da roupa podem ser genuinamente insuportáveis. E há recusa que é afirmação de autonomia, quando o cuidado se tornou intrusivo.
Uma clarificação importante: a distinção entre não querer e não conseguir é a mais consequente de todo este tema. Exigir a quem não consegue produz fracasso, vergonha e mais recusa. Fazer por quem consegue produz perda de capacidade. A resposta certa é o apoio mínimo que permite a tarefa acontecer.
O que a própria pessoa pode fazer
Reduzir o alvo até ele se tornar possível. Se o banho é inatingível, lavar a cara. Se arrumar a casa é inatingível, uma superfície. O princípio é o do mínimo aceitável, que já está descrito no plano de autocuidado do plano pessoal de autocuidado : para cada domínio, definir o que é possível num bom dia, num dia difícil e num dia mau, para que exista sempre um alvo atingível. Fragmentar a tarefa em passos e executar apenas o primeiro. Usar apoios externos — alarmes, listas, roupa preparada na véspera. E aceitar ajuda para o passo inicial, que é habitualmente o mais difícil.
O que fazer quem acompanha
Fazer com, e não por. Iniciar a tarefa em conjunto e retirar-se à medida que a pessoa a assume. Oferecer escolha sobre o modo e não sobre o se: «prefere banho de manhã ou à noite?». Simplificar o ambiente: roupa preparada pela ordem de vestir, objetos à vista, casa de banho aquecida. Dar tempo, sem público e sem pressa. Reconhecer o que foi feito, sem excesso, que é infantilizante.
Verificar as causas concretas antes de concluir que é falta de vontade: a pessoa tem dor ao mover-se? tem medo de cair no duche? a água está fria? existe vergonha de ser vista despida? a casa de banho é acessível? Muitas recusas resolvem-se com uma barra de apoio, um tapete antiderrapante ou um banco. E hierarquizar: a higiene oral, a hidratação, a medicação e a mobilidade têm prioridade sobre a arrumação.
O que nunca fazer
Não humilhar, não comentar o cheiro perante terceiros, não expor. Não forçar fisicamente. Não substituir integralmente a pessoa em tarefas que ela ainda consegue fazer, porque a capacidade não usada perde-se com rapidez. Não transformar cada dia numa negociação sobre o banho, que degrada a relação e não altera o comportamento. E não interpretar a recusa como desprezo pelo esforço de quem cuida.
Quando é urgência
Quando existe recusa que compromete a saúde física: feridas, úlceras de pressão, infeções cutâneas, desidratação, recusa de medicação essencial. Quando a pessoa deixa de sair da cama durante dias. Quando há incapacidade de assegurar a própria segurança em casa. E quando a degradação do autocuidado é rápida e recente, o que sugere agravamento clínico, causa física aguda ou início de quadro depressivo grave.
Ver também as perguntas 55 (o que é o autocuidado) e 56 (reconstruir o autocuidado).
Informação geral: não substitui avaliação e cuidados individualizados. Consulte a política editorial e as fontes.