Fundamentos · Pergunta 11

Ter sintomas significa que tenho uma doença mental?

Não. Sintomas isolados de ansiedade, de tristeza, de insónia, de irritabilidade, de dificuldade de concentração ou mesmo experiências percetivas invulgares são frequentes na população geral e, na maioria dos casos, transitórios e sem significado clínico. Estudos populacionais mostram que uma proporção substancial de pessoas sem qualquer diagnóstico relata, num dado momento, sintomas que constam dos critérios de várias perturbações. O sintoma é uma peça de informação, não um veredicto.

Quatro critérios ajudam a situar a experiência. O primeiro é a intensidade: um sintoma que atravessa o dia é diferente de um que aparece em momentos determinados. O segundo é a duração: a maioria das reações normais atenua-se em dias ou em poucas semanas, ao passo que os critérios de diagnóstico exigem, tipicamente, persistência de duas semanas a seis meses consoante a condição. O terceiro, e o mais discriminativo, é a disfunção: o sintoma altera o trabalho, o estudo, as relações, o autocuidado ou a capacidade de fazer aquilo que a pessoa valoriza. O quarto é a proporção face ao contexto: tristeza profunda após uma perda é uma resposta adequada; a mesma tristeza sem acontecimento identificável, ou muito para além do que o acontecimento explica, tem outro significado.

Este quadro exige duas cautelas simétricas. A primeira dirige-se ao autodiagnóstico. As listas de sintomas circulam com enorme facilidade, e a exposição a conteúdos que descrevem experiências inespecíficas — distração, cansaço, oscilação de humor, dificuldade em regular emoções — produz reconhecimento quase universal, porque quase toda a gente as tem em alguma medida. Este fenómeno é antigo e bem descrito entre estudantes de medicina, que identificam em si as doenças que estudam, e é hoje amplificado pelas redes. Reconhecer-se numa descrição não é diagnóstico.

A segunda cautela dirige-se aos instrumentos. Escalas como o Questionário de Saúde do Doente ou as escalas de ansiedade generalizada são instrumentos de rastreio, concebidos para sinalizar quem deve ser avaliado, e não para diagnosticar. Um resultado elevado indica que vale a pena falar com alguém da equipa de saúde; não indica que existe doença. Um resultado baixo não exclui, sobretudo se a pessoa minimizou as respostas. O mesmo se aplica às aplicações e aos assistentes conversacionais que sugerem hipóteses diagnósticas: podem organizar a informação e ajudar a formular perguntas, mas não substituem a avaliação clínica, que integra história, contexto, evolução e exame.

O erro contrário é, contudo, mais frequente e mais lesivo. Grande parte das pessoas com perturbação mental demora anos a procurar ajuda, e a explicação mais comum é precisamente esta: a convicção de que os sintomas não são suficientemente graves, de que se trata de fraqueza ou de que passará. Existem situações em que a avaliação não deve ser adiada por nenhuma destas considerações — pensamentos de morte ou de suicídio, incapacidade de cumprir as tarefas do dia a dia, perda de contacto com a realidade, consumo crescente de substâncias para suportar o mal-estar, e qualquer alteração marcada e persistente do funcionamento habitual.

Na dúvida, há um procedimento simples e útil. Durante duas semanas, registe diariamente três elementos: que sintomas ocorreram, com que intensidade aproximada, e o que deixou de conseguir fazer por causa deles. O terceiro elemento é o decisivo. Findo esse período, o registo permite responder à pergunta com informação e é, ele próprio, o material mais útil que pode levar a uma primeira consulta — bastante mais informativo do que a tentativa de recordar, no consultório, como correram as últimas semanas.

Ver também as perguntas 36 (sinais precoces) e 37 (quanto tempo esperar).

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