Tratamento e recuperação · Pergunta 56

Como se reconstrói o autocuidado, passo a passo?

O princípio que atravessa toda esta resposta é o da graduação do apoio. Quando a capacidade de cuidar de si está comprometida, existem três níveis de resposta possíveis: fazer pela pessoa, fazer com a pessoa, e apoiar e ensinar para que faça sozinha. O erro mais comum é permanecer no primeiro nível para além do necessário, o que produz dependência e perda de competência; o segundo erro, simétrico, é exigir o terceiro nível quando a capacidade ainda não existe, o que produz fracasso e vergonha. A avaliação correta é dinâmica e revê-se com frequência.

A evidência sobre intervenções estruturadas é favorável. A metanálise de Lean et al. (2019), publicada no British Journal of Psychiatry, que reuniu 37 ensaios clínicos aleatorizados com 5 790 participantes com doença mental grave, verificou que as intervenções de autogestão produzem melhoria dos sintomas, redução das hospitalizações e melhoria do funcionamento, da qualidade de vida e da recuperação pessoal, com efeitos mantidos no seguimento a longo prazo em vários resultados.

Quanto ao método, quatro regras aumentam a probabilidade de sucesso. Escolher um único domínio de cada vez, e o mais fácil e não o mais importante, dado que o objetivo inicial é restabelecer a experiência de conseguir. Fragmentar a tarefa até ao ponto em que se torne executável: quando tomar banho é inatingível, o alvo é lavar a cara; quando cozinhar é inatingível, o alvo é ter em casa alimentos que não exijam preparação. Ancorar a tarefa a um momento fixo já existente na rotina. E registar o que foi feito, dado que a depressão distorce a memória do próprio desempenho e o registo objetivo contraria essa distorção.

No domínio da higiene, o compromisso é frequente, produz vergonha intensa e raramente é verbalizado. Estratégias úteis incluem reduzir o número de passos — deixar a roupa preparada, ter os produtos à mão —, aceitar versões parciais, usar toalhitas e champô seco nos períodos de menor capacidade, e associar a tarefa a um momento com menor exigência energética. A higiene oral merece atenção específica, pelas razões descritas na pergunta anterior: escovar mesmo que apenas uma vez, hidratar a boca quando a medicação produz xerostomia e manter consultas de medicina dentária.

Na alimentação, o alvo em fase de menor capacidade não é a dieta ótima, mas a regularidade e a suficiência. Ter em casa alimentos de preparação nula ou mínima, definir horários fixos ainda que sem fome, e preparar quantidades maiores nos dias melhores para os dias piores são estratégias com melhor resultado do que qualquer plano alimentar elaborado. Convém ainda vigiar o efeito da medicação sobre o apetite, em qualquer dos sentidos.

No sono, aplica-se o descrito na pergunta 22, com uma precisão: em fase aguda, o alvo é a regularidade do horário de levantar, que é o sincronizador mais poderoso e o mais controlável — a hora de adormecer não se decide, a de levantar decide-se.

Na gestão da medicação, ajudam a caixa semanal, os alarmes, a associação a uma rotina fixa, a lista escrita com nomes, doses e finalidades, e a existência de uma pessoa informada. Importa igualmente saber que comunicar um efeito adverso é preferível a interromper, e que existe quase sempre alternativa.

A vigilância da saúde física é a componente mais negligenciada e a que mais pesa na mortalidade. Deve assegurar-se a inscrição numa equipa de saúde familiar, a monitorização do peso, do perímetro abdominal, da tensão arterial, da glicemia e do perfil lipídico — sobretudo em quem toma antipsicóticos —, a vacinação, os rastreios oncológicos correspondentes à idade e ao sexo, e a saúde sexual e reprodutiva, domínio frequentemente omitido por presunção de inatividade sexual, que não corresponde à realidade.

Completa o quadro a atividade física, mesmo em quantidade mínima, e a manutenção de pelo menos um contacto social regular — os dois domínios que mais rapidamente se perdem e mais custam a recuperar.

Uma última orientação, dirigida a quem acompanha: substituir a pessoa em tarefas que ainda consegue realizar, ainda que lentamente e de forma imperfeita, retira-lhe competência e confiança. A regra prática é oferecer o menor apoio que permita a tarefa acontecer, e reavaliá-lo com regularidade.

Ver também as perguntas 55 (o que é o autocuidado) e 54 (autogestão).

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