Perturbações · Pergunta 96
Como se trata a depressão?
O tratamento organiza-se em três fases com objetivos distintos. A fase aguda, com duração de seis a doze semanas, visa a remissão dos sintomas. A fase de continuação, de quatro a nove meses após a remissão, visa consolidar a resposta e prevenir a recaída do mesmo episódio. A fase de manutenção, de duração variável e por vezes indefinida, visa prevenir novos episódios em pessoas com risco elevado de recorrência.
Nos quadros ligeiros, as orientações internacionais recomendam a intervenção psicológica como primeira linha, com opções que incluem a ativação comportamental, a terapia cognitivo-comportamental, a terapia de resolução de problemas e as intervenções guiadas de autoajuda. O exercício físico estruturado é alternativa razoável: a metanálise em rede de Recchia et al. (2022), com 21 ensaios e 2 551 participantes, não encontrou diferenças significativas entre exercício, antidepressivos e a sua combinação na depressão não grave, embora com maior taxa de abandono nas intervenções de exercício.
Nos quadros moderados a graves, a evidência favorece a combinação. A metanálise em rede de Cuijpers et al. (2020), com 101 estudos e 11 910 participantes, verificou que o tratamento combinado foi superior à psicoterapia isolada (RR = 1,27; IC 95% [1,14; 1,39]) e à farmacoterapia isolada (RR = 1,25; IC 95% [1,14; 1,37]) na obtenção de resposta, sem diferença entre as duas modalidades isoladas (RR = 0,99; IC 95% [0,92; 1,08]). O tratamento combinado e a psicoterapia isolada apresentaram melhor aceitabilidade do que a farmacoterapia isolada.
Quanto aos medicamentos, a metanálise em rede de Cipriani et al. (2018), com 522 ensaios e 116 477 participantes, verificou que todos os 21 antidepressivos estudados foram superiores ao placebo, com razões de possibilidades entre 1,37 e 2,13. As diferenças entre medicamentos ativos foram pequenas quando se consideraram todos os ensaios, e a certeza da evidência variou entre moderada e muito baixa. A implicação prática é que a escolha deve orientar-se pelo perfil de possíveis efeitos secundários, pelas comorbilidades, pelas interações, pela resposta prévia e pela preferência da pessoa, e não por uma hierarquia de potência.
As classes disponíveis incluem os inibidores seletivos da recaptação da serotonina, habitualmente de primeira escolha pelo perfil de tolerabilidade; os inibidores da recaptação da serotonina e da noradrenalina; os antidepressivos de ação multimodal; a mirtazapina, com perfil sedativo e orexígeno que pode ser vantajoso ou indesejável; a bupropiona, sem efeito sexual adverso e com utilidade na cessação tabágica; e os tricíclicos, eficazes mas com pior tolerabilidade e maior toxicidade em sobredosagem.
Nos quadros que não respondem — abordados em detalhe na pergunta 51 —, existem estratégias de segunda linha e opções para a depressão resistente, por exemplo a estimulação magnética transcraniana, a cetamina e a esketamina, e a eletroconvulsivoterapia, que mantém a taxa de resposta mais elevada na depressão grave e resistente, sobretudo com sintomas psicóticos ou catatonia.
A duração do tratamento é matéria de decisões frequentemente erradas. As orientações recomendam a manutenção do antidepressivo na dose eficaz durante seis a doze meses após a remissão num primeiro episódio, e durante períodos substancialmente mais prolongados em pessoas com episódios múltiplos, com sintomas residuais ou com fatores de risco de recorrência. A interrupção precoce é uma das causas mais frequentes de recaída evitável.
Completam o tratamento medidas de eficácia comprovada e frequentemente omitidas: o tratamento da insónia comórbida, que persiste em muitos casos após a remissão do humor e é fator de risco de recaída; a redução do consumo de álcool; a atividade física regular; a intervenção sobre fatores contextuais de manutenção; e o envolvimento da rede de apoio.
Ver também as perguntas 48 (medicação), 51 (se não resultar) e 97 (recorrência).
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